Bahia Terra da ….

Escrito por Lucia Saraiva em . Publicado em Artigos

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Semana passada estive em Salvador, minha cidade natal, sou soteropolitano, morei na capital em alguns momentos da minha vida e posso dizer que conheço a cidade tão bem quanto às ruas de Londres e as trilhas de Serra Grande/Ba., pequeno distrito onde moro atualmente.

Costumo ir a capital sempre que preciso e confesso que não por prazer e sim para realizar uma missão seja ela familiar, médica etc..

A cidade como quase todo mundo já sabe, vive o pior momento de sua existência, têve oito anos de desmando do último prefeito, aliado a uma falta de planejamento que vem dos tempos do Governo Tomé de Souza. A cidade da Bahia de todos os Santos sofre com um trânsito que muitas vezes lembra o da cidade de Bombaim, na Índia, outras vezes com o caos das marginais de São Paulo. O problema do trânsito superou o problema da violência e o papo do dia sempre é sobre o trânsito, como está impossível chegar aos lugares e de fato está complicadissimo. Salvador pára todo o dia em engarrafamentos que sem motivo aparente para engarrafar, mas simplesmente pela quantidade enorme de veículos nas ruas a qualquer horário. O mais incrível é que apesar da zona instalada na metrópole, o futuro da cidade segue para um caminho estilo ao Filme Balde Runner, mas neste caso com robôs feitos no Paraguai.

Basta observar todos os projetos das novas vias, viadutos, corredores de ônibus etc. e verá que a forma de pensar e agir continua a mesma – priorizar o carro. Pensam os grandes “gênios” da engenharia urbana de trânsito, que criando mais vias na cidade o trânsito voltará a fluir normalmente. Uma ilusão, pois sabemos, nenhuma grande cidade consegue absorver o número enlouquecedor das maternidades de carros que aumentam e duplicam a cada ano. Nada é mais atrativo e persuasivo do que o automóvel para a sociedade brasileira, o “cara” pode morar em um barraco, mas sempre sonha em ter  primeiro um carro depois uma casa com laje.

O transporte alternativo ainda é uma piada para quem anda de carro e para quem planeja a cidade de Salvador. Muito se fala da bicicleta com meio de transporte, mas pouco se faz ou será feito na prática, a não ser pequenas ciclovias ou ciclofaixas que não leva a nada, a lugar nenhum…

Em uma conversa de amigos que possuem carros e que não são ciclistas posso apostar a minha bike nova, que nenhum deles está disposto a deixar o carro para se arriscar pela cidade mesmo que se criem novas ciclovias. A bicicleta é vista pela classe média que anda de carro como algo exótico e desconfortável para a grande maioria e não algo fundamental, assim como um transporte coletivo de qualidade para que a cidade possa sobreviver nos próximos anos . Esta mudança de conceito será feita em outras gerações, quando o alternativo será a lei de sobrevivência, como foi a China com relação a quantidade de filhos, o carro é um veneno para a cidade, mas mesmo assim vejo pessoas em seus autos, lentos, sozinhos encubados dentro do aço, cada qual no seu, falando em seus i pods no trânsito do Rio Vermelho, uma contradição masoquista. “Oi amor estou aqui sofrendo no trânsito, mas jamais mudarei meu hábito, prefiro malhar na academia, lá é mais seguro e tem toalhinha.”

Andar a pé é outra aventura em Salvador, recomendo usar uma bota de trekking e ter cuidado ao dividir a calçada com camelôs e fios acima de sua cabeça. A lei é não ter lei. Adoro a av. Sete e odeio a av. Sete, não dá para andar sem se bater com gente, gritos alucinantes de caixas de som, divido a rua com um carrinho de pipoca e o passeio com um vendedor de bolsas. Aos poucos a capital baiana vai perdendo sua identidade, sua ginga, sua beleza, sua historia virando algo pasteurizado, cheios de caixões de diversão travestidos de shoppings centers.

Algumas pessoas dizem que eu não gosto de Salvador e que nunca gostei, mas isto é uma meia verdade, tenho orgulho em ser da Bahia, mas me decepciono por ela permanecer igualzinha quando eu tinha catorze e agora ainda pior, sem o seu jeito descontraído, sua alegria, com um carnaval de rua cartelizado e que aos poucos vai sendo levado para o Rio de Janeiro.

O papo da copa chega a ser uma piada, pois a única coisa nova até o momento é a arena Fonte Nova, no mais tudo igual… Devemos ser otimistas, me obrigam dizer os otimistas, mas não sou tolo de pensar que Salvador estar no caminho certo, o caminho para tudo isto é taxar o uso de carros ao entrar no centro da cidade, reprimir o uso da metralhadora de quatro rodas. Usar o carro sim, mas com inteligência e sabedoria, ai vamos poder cantar novamente a música de Dorival, Bahia terra da felicidade.

  Texto: Dimitri Vianna

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