Seguro para Bicicletas

Escrito por Lucia Saraiva em . Publicado em Artigos

Cada vez mais brasileiros têm investido em bicicletas de alto custo para a prática esportiva, lazer e meio de transporte. Simultaneamente, há um aumento nas ocorrências de roubos e furtos de bikes que leva, consequentemente, à consciência de que este equipamento representa um patrimônio que precisa ser protegido. A contratação de um seguro é a opção cada vez mais procurada para este fim.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
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Seguro para bicicletas
Foto: Ilustração sobre foto de Depositphotos
Já se foi o tempo em que a expressão “ladrões de bicicleta” fazia alusão aos criminosos inexperientes. Sim, há ainda os oportunistas, mas surgem cada vez mais especialistas, meliantes que sabem avaliar as bicicletas top de linha e se concentram nelas no momento de agir. Esses casos, infelizmente, aumentam na mesma medida em que mais pessoas aderem a uma boa bicicleta. As estatísticas alertam ao aumento do risco em todo o país, com maior concentração no sul e sudeste. Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais, houve um aumento de furtos de bike no estado de quase 30% em 2014, comparado a 2013. Curitiba – PR registra, neste início de 2015, média de um roubo de bicicleta a cada dois dias. A Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina registrou, nos primeiros 41 dias do ano, 340% mais assaltos a ciclistas que a média diária de 2014 em Florianópolis. No portal Bicicletas Roubadas, criado por Pedro Cury em 2001 com o objetivo de ajudar na recuperação de bikes furtadas e mapear áreas de risco, São Paulo aparece no ranking com maior casos de roubos e furtos, representando mais de 40% das ocorrências nacionais (ressalta-se que este banco de dados é alimentado pelo próprio ciclista vítima do infortúnio e não substitui o registro de Boletim de Ocorrência).

Um problema mundial

O aumento na insegurança dos ciclistas não é um problema exclusivo do Brasil. Mesmo em países desenvolvidos há locais perigosos de se pedalar. Veja alguns dados pelo mundo: – Segundo estudo publicado no portal Geld.de, 326.159 bicicletas foram roubadas na Alemanha em 2012, sendo que quase metade desapareceram nas principais cidades alemãs com mais de 100 mil habitantes. Dificilmente os ladrões são pegos. Suspeita-se até da atuação de pequenos bandos especializados em roubos de bicicleta que realizam arrastões nas cidades alemãs. – Uma força-tarefa foi anunciada na cidade norte-americana de Portland para tentar reduzir em 50% os roubos de bicicleta em cinco anos, segundo o portal oregonlive.com. Cerca de 2.700 bicicletas avaliadas em dois milhões de dólares foram relatadas à polícia como roubadas em 2014. – Há um tipo de trava extremamente resistente que é denominada “new yorker”, uma referência à cidade de Nova Iorque, nos EUA, um dos locais com maior e mais sofisticado índice de roubos de bicicletas no mundo. – O sistema de bicicletas Vélib estreou em Paris no ano de 2007, com 20.600 bicicletas alugadas a um euro por hora. Dois anos depois, 80% das bikes haviam sido depredadas ou roubadas. – A Holanda é um país conhecido pelas bicicletas: há 16,7 milhões de pessoas e 16,5 milhões de bicicletas: aproximadamente uma para cada habitante. Mas os holandeses utilizam bicicletas mais “surradas e velhas”. A explicação: cerca de 20% das bikes são roubadas por ano. Amsterdã tem fama de ser a capital do roubo de bicicletas do mundo.
Além de mais bicicletas de alto valor estarem circulando, o furto de bicicleta é um crime de baixo risco: “dificilmente o meliante é pego, e quando é, as consequências são mínimas”, diz um estudo do blog norte-americano priceonomics. Resumo da ópera: tem muito ciclista que investiu um valor elevado em seu equipamento, mas acaba usando uma segunda bicicleta, de menor valor, e deixa a “top” em casa para utilizar apenas em competições ou pedaladas em grupo. Deixar a melhor bicicleta em casa não é o desejo da maioria, e também não é garantia de segurança, já que mesmo dentro de casa ela pode ser alvo dos meliantes. Diante deste cenário, o seguro para bicicleta surgiu e tem se popularizado como uma solução para proteger este bem. Segundo o Sindicato dos Corretores do Estado de São Paulo (Sincor), a procura por seguros contra furtos e roubos de bicicletas no estado paulista triplicou entre 2012 e 2014. A Estar Seguros, criada por Luiz Fernando Giovannini há dez anos, é pioneira no seguro de bicicletas no Brasil e atualmente administra milhares de apólices. “Hoje em dia temos clientes segurados de ‘a a z’, em decorrência da insegurança que o biker sente ao sair com sua magrela, seja ele atleta ou entusiasta”, diz Luiz. Também em 2005, a Kalassa Brasil Insurance também passou a oferecer o seguro. Com a demanda em alta, é crescente o número de corretoras oferecendo o seguro que atenda ao público ciclista. A Neptunia Corretora de Seguros, por exemplo, trabalha com seguro para bikes há cinco anos. Segundo Douglas Dias, comercial técnico da corretora, “a Neptunia tem 62 anos de mercado, e em 2010 entrou no nicho de seguro para bicicletas dada a necessidade identificada por nossos sócios, que são esportistas. Hoje, temos centenas de clientes em todas as regiões do Brasil”. Outro exemplo é a seguradora Argo Brasil, que em parceria com a corretora Better Seguros, oferece seguro Protector Bikes. Segundo Janete Tani, gerente de riscos patrimoniais da Argo, “nosso seguro basicamente é procurado por atletas que buscam garantir a integridade de seu equipamento, bem como a tranquilidade em seus treinos e provas por todo o país, uma vez que a cobertura é nacional”.

E no meu caso, seguro é a solução?

Para responder a esta pergunta, vale recorrer ao conceito de seguro. Os artigos 757 a 802 do Código Civil, além de legislação extravagante que lhe diz respeito, tratam amplamente do tema “seguro” no direito brasileiro. Sucintamente, seguro é um contrato pelo qual a seguradora, mediante recebimento de um valor monetário estipulado denominado prêmio, assume perante o segurado a obrigação de indenizá-lo caso ocorra um sinistro, resultante de um evento futuro, possível e incerto (risco) indicado no contrato. Tais riscos podem estar relacionados à vida, saúde, direitos ou patrimônio do segurado, como é o caso da bicicleta. Quanto maior o “risco”, mais sentido faz realizar o seguro. Para ilustrar, um caso bem extremo é o da Escola de Bicicleta Ciclofemini, de São Paulo – SP, que realiza cursos com atividades práticas ao ar livre, em parques da capital paulista, sujeita, portanto, a um grau de risco elevado. Segundo Claudia Franco, idealizadora desta instituição educadora, “como somos uma escola, temos muitas bicicletas, algumas de valor importante. Sabendo do aumento de roubos e furtos de bicicleta, decidimos segurar todas as bicicletas para termos um pouco mais de tranquilidade ao utilizá-las. Assim como temos seguro da casa, do carro, seguro de vida, resolvemos fazer também o seguro das bicicletas”. Outro ponto a ser levado em consideração para analisar a viabilidade do seguro é o valor do bem. A maioria das seguradoras exige que a bike tenha um valor mínimo, que gira em torno de R$ 3.000,00. Patrícia Collese, que atua no ramo de seguros a mais de 25 anos, afirma: “o perfil dos segurados é de pessoas preocupadas com proteção, prevenidas e que normalmente pedalam duas ou mais vezes por semana. Elas possuem uma bicicleta de um custo um pouco mais elevado que a média”.

Coberturas

Claudia Franco já precisou acionar o seguro, contratado com a Estar Seguros, e conta sua experiência. “No nosso caso, aconteceu tudo conforme o previsto no serviço contratado. Um bandido nos abordou e tomou a bicicleta de nossas mãos. Apresentamos o Boletim de Ocorrência, comprovando este fato, e recebemos o valor do seguro, deduzido da franquia (que ainda é alta). O seguro que contratamos cobre o roubo, seja a mão armada ou não, mas não cobre o furto simples. Ou seja, se você for ao banheiro de um parque público e deixar sua bicicleta em um paraciclo, e o ladrão romper o cadeado e levar sua bike, o seguro não ressarce. Se sua bike for avariada em caso de queda, o seguro também não cobre o dano”. É importante analisar as cláusulas da apólice do seguro oferecido a você e avaliar se o que você está contratando atende suas expectativas, lhe deixa seguro diante dos riscos a que você se sente sujeito. Ao fazer a cotação, converse com o corretor sobre o uso que você faz e as situações em que se sente ameaçado. Muitas seguradoras oferecem a opção de seguro residencial com extensão para a bicicleta. A Collese Seguros é um exemplo. Segundo Patrícia Collese, “se alguém liga pedindo se comercializamos seguro para bicicleta, respondemos que não. O que comercializamos é um seguro residencial, que cobre também a bicicleta. A cobertura vale para os seguintes sinistros: incêndio, subtração, colisão e danos elétricos, desde que a bicicleta esteja devidamente guardada no interior da residência habitual do segurado. Também em trânsito, desde que conduzida pelo segurado; sendo transportada em veículos adequados e/ou adaptados para tal fim, e responsabilidade civil: reembolso das despesas decorrentes dos danos corporais e/ou materiais causados a terceiros, em razão de acidentes ocasionados pela utilização da bicicleta relacionada na apólice de seguro, desde que em quaisquer das circunstâncias o próprio segurado seja o condutor”. A seguradora Kalassa, por exemplo, desenvolveu produtos específicos para este nicho. Em 2005 passou a oferecer seguro para bicicletas, e também oferece seguro de vida específico para ciclistas e triatletas, além de seguro viagem com cobertura para práticas esportivas. Segundo Paulo Kalassa, “o seguro cobre bicicletas a partir de R$ 3 mil contra roubo enquanto pedala, roubo enquanto transporta a bike no seu veículo, roubo dentro da residência e danos na bike enquanto transporta no veículo”.

Entenda os termos

Risco: evento inesperado, incerto, aleatório, possível, real, lícito e fortuito que, ao ocorrer, gere prejuízo ou danos materiais e pessoais, previsto no contrato. Sinistro: realização do risco previsto no contrato, resultando em perdas para o segurado. Seguradora: entidade jurídica legalmente constituída para assumir e gerir os riscos especificados no contrato de seguro. Segurado: pessoa física ou jurídica que transfere à seguradora o risco de um prejuízo. Prêmio: valor monetário que o segurado concorda em pagar à seguradora para validar o contrato. Franquia: valor que o segurado deve arcar cada vez que um sinistro ocorrer e o seguro for acionado. Indenização: valor que a seguradora paga ao segurado pelos prejuízos decorrentes de um sinistro.
Na literatura destaca-se como três pilares essenciais do seguro o risco, a mutualidade e a boa-fé, cuja ausência constitui causa de nulidade de contrato. Este dado é importante e justifica algumas exclusões importantes consideradas por praticamente todas as seguradoras, como situações de agravamento de risco. Por exemplo, a bicicleta estacionada em local que não seja a residência habitual do segurado, roubada enquanto o ciclista se ausenta, não é indenizada. Além disso, não estão cobertos acessórios de uso pessoal não acoplados à bicicleta, como o capacete, por exemplo.

Quanto custa?

Ao procurar uma corretora para fazer a cotação, o ciclista deve ter em mãos um documento fiscal de compra da bicicleta. Algumas seguradoras, além disso, realizam uma vistoria da bike. A Neptunia, por exemplo, pede que o cliente realize uma vistoria on-line para análise. “O próprio interessado acessa o link da companhia de seguros e faz o up-load de seis fotos: da bike inteira, do selim, pedivela, câmbios, número de série e acessórios. De posse do número do laudo mais as informações pessoais, emitimos a apólice”, diz Douglas. Com o valor do bem estabelecido, calcula-se o valor anual do seguro e da franquia, em caso de sinistro. Na Argo, segundo Janete Tani, “o processo de contratação é bem simples e para bicicletas novas pode ser feito 100% on-line. Os documentos necessários são nota fiscal ou recibo, fotos da bicicleta com número de série e dados pessoais do ciclista. Já para bicicletas usadas, poderá ser solicitada uma vistoria em alguma loja do ramo credenciada. Temos atendimento em todo o Brasil”. A Estar Seguros cobra 5% do valor da bicicleta por ano, e franquia de 10%, com mínimo de R$ 400. A Kalassa segura bicicletas a partir de R$ 3.000 e utiliza uma tabela de valor mínimo anual de acordo com a faixa de preço da bike. A primeira faixa cobre bicicletas de R$ 3.000 a R$ 8.000, com valor mínimo anual de R$ 500,00 e franquia de R$ 1.000. Para bicicletas com valores maiores, o valor do seguro também fica em torno de 5%. No caso de seguro residencial, Patrícia afirma: “havendo sinistro da bicicleta, e o segurado tendo contratado o seguro residencial, o caso vai para a análise da corretora, sempre com o intuito de repor o bem”. O nicho de seguro para bicicletas ainda tende a crescer e evoluir no Brasil, adaptando-se à nossa realidade e necessidades, com corretores cada vez mais especializados, garantindo ainda mais tranquilidade para o ciclista. Se você tem uma bicicleta de valor maior, mas se sente intimidado em certas situações, com medo de ser assaltado ou furtado, avalie a alternativa de realizar um seguro. Ter alguma garantia de reposição do seu bem e proteção ao seu patrimônio lhe deixarão mais à vontade para aproveitar sua bicicleta do jeito que você sonhou ao adquiri-la.

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